quinta-feira, 12 de julho de 2012

Doença


O poema é estado febril que fere dedos.
É mercúrio no termômetro da palavra,
Tóxico inalado na pele dos sentidos,
Diante dos olhos para dentro da boca.

O poema resseca-se em solilóquio
Seiva condensando perigoso deserto.
À procura de almas perdidas em desalento,
Inaugura em suor a líquida horizontalidade do verso.

O poema oferece epigramas de sinapses
Que são galáxias engolindo números e sílabas.
Martírio belicoso da fome de morder,
(onde paira o canino mistério do dente).

É desregramento milimétrico na plenitude da régua!

O poema escarnece a metafísica do silêncio
É berro onde só se ouviam células.
É curtume onde se sangravam bíblias.
Tal qual fibra contorcida em dióxido de dúvida,
É adubo e saliva e clarividência.

O poema é o vazio parindo matéria.

sábado, 23 de junho de 2012

Antídoto


A mágoa...
Pranto engolido pra dentro d'alma,
Dor que chafurda na fenda do espírito,
Ferida que não cicatriza nem com o sangue coagulado do tempo.

Para esse veneno bebido a conta-gotas,
O antídoto possível para estancar a hemorragia
É ingerir a dose única e durante o dia
O bálsamo ungido da palavra perdão.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Santa Luzia (para Josias Jr.)


Santa Luzia,
Ágata imaculada de minha infância esmaecida,
Protegei o olhar desta luzidia amizade...
Para que nada – breu, escuro, noite enfurecida –
Ofusque este olho que vê beleza onde só existe fealdade.

Que esta retina transfigurada em bênçãos de amizade cega
Continue enxergando em mim o merecimento que este olhar encerra.



PS: Um poema que escrevi há algum tempo sobre o grande poeta e amigo Josias Jr. Reproduzo aqui ao saber que o companheiro recebeu uma homenagem noutro blog literário; Um grande momento para homenageá-lo novamente.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Teatro


A morte é meu ditirambo,
meu escambo permanente com o destino.
A morte é meu escárnio,
adágio imanente de meu sorriso fenecido.

Rogo-vos, neste murmúrio sucumbido,
que me permita encontrar na solidão de vosso abraço
um coro de olhos arrependidos
tecendo loas, cantos dionisíacos
ao que foi uma vida de desterro e embaraço.

domingo, 20 de maio de 2012

Arco-Íris de Quintal


Enquanto aguava as plantas do jardim
Nascia um arco-íris no meu quintal
Pintando o ar estático de cores verticais
Flutuando acima da grama e dos pardais.

Como pode surgir tal pintura matinal
De folhas mortas
Por sobre o solo úmido?

Um encontro aquoso
De colorido rarefeito,
Como uma transpiração do olho,
Como o braço do nadador...

Saindo da terra,
As formigas esbarram
Na base daquela escada matizada;
Abandonam folhas,
tropeçam em frutos mortos,
Estão assombradas
Diante da múltipla luz refletida.

Nunca entendi de arco-íris,
Nem do que o destino oferece,
Mas percebo que o assombro da formiga
É inegavelmente mais pleno de realidade
Que o nascimento daquele arco-íris
Enquanto eu aguava as plantas do jardim.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Crisântemo na Madrugada


Noite que fulgura
Na natureza escassa
Desampara a alma e enlaça
A dor que a ausência emoldura.

O vazio em corpo desfalecido
De animal puxando a charrua
É fogo entre duas luas
Apenas um sol entorpecido.

É quando vem a saudade descabida
E dá nó no peito em alvoroço,
Desenho que só se tem o esboço
Do exílio daquela alma esculpida.


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Sobejo


Se a saudade apertar mais
jogo fora o coração
cego os olhos, corto a língua
furo os ouvidos, abro o caixão
rasgo os pulsos, bebo veneno
me jogo no rio, me enterro no chão...
Só não aguento sentir desse jeito
essa dor bem no meu peito
coisa sem explicação.
Noves fora esse sentir cruento,
o linguajar violento,
só não morro sem pedir perdão.