sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O Amor Não Mais Escorria Pelas Paredes


O amor não mais escorria por aquelas paredes...
Antes, elas, as paredes, banhavam-se num suor cálido
E derretia os quadros, os painéis, o lustre, janelas.
Até o Coração de Jesus liquefez-se.
O cadeado da porta escoou lânguido pelo piso do terraço.
Nem mesmo as chaves abriam aquelas portas
Porque tudo se escancarava num dilúvio dentro e fora.
Na liberdade líquida do escancaro.
O amor nos levava qual embarcação
Entre o portão e a cozinha,
Entre a sala e o quarto,
Jardim, sótão, banheiros...
De tanto amor, boiávamos agarrados
Diante de ondas arrebatadoras,
Cuja força nos lançava para longe de nós mesmos.
De repente o amor estancou.
O dilúvio virara deserto.
Icebergs nasceram no centro da sala.
Vulcões adormeceram morbidamente.
O jardim ressecara por nossa incapacidade de ferir o gelo.
Aos poucos, nem embarcações havia mais.
Nadávamos no fio líquido que saía de nossos ventres
E passamos a andar sobre sapatos.
Usar vestidos e ternos e roupas íntimas
(Sim, porque até aquele momento o amor nos deixara nus).
E começamos a construir outras portas
Outras saídas, outros destinos nos lamentos enternecidos.
E o amor, que antes escorria pelas paredes
Tornou-se uma pedra imóvel
Na solidão oceânica de nossos corações.

3 comentários:

  1. Lindo demais!Adorei seu poema! Abraços

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  2. Muito bom!

    Adoro quando é usado relação entre sentimento e situação.

    Muito belo!

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  3. Muito belo e real.
    Começo, meio e fim. E triste, porque não houve transformação. Porque o amor também se transforma às vezes.
    Bjos.

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